A Marcha Rancho (Marchinhas de Carnaval)

O Arlequim, personagem comum em marchinhas
Antes de começar, um prólogo carnavalesco!
O Carnaval começou como uma festa religiosa, veio para o Rio de Janeiro nas casas das tias baianas (escravas recém-libertas ou fugidas, vindas da Bahia para a capital do país, em busca de alguma chance de vida). Carregado do sincretismo típico do Candomblé, a festa ocorre em função da Páscoa (47 dias antes), mas na Bahia os cantos eram africanos, acompanhados por ritmos bem pagãos como o lundu, a fofa – danças de roda, normalmente bastante sens(x)uais.

As casas das tias baianas deram origem a agremiações carnavalescas chamados “ranchos” (também conhecidos como “cordões” e “blocos”) e o ritmo que se consagrou para o desfile de rua foi o das marchas populares portuguesas, existentes desde o século XVIII. Abrasileirando o que os portugueses criaram, surgiu a Marcha Rancho, cujo primeiro exemplo aparece em 1890, com “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga.

Mas Chiquinha é apenas o primeiro nome ilustre a aparecer no texto. Sinhô, Noel Rosa, Silvio Caldas, Lamartine Babo, Cartola, Chico Buarque; a maioria dos compositores brasileiros tem alguma composição no ritmo da marcha.

Com a incorporação na festa popular, a marchinha, assim como a cantoria no nordeste do século XIX, se transformou em palco de disputas entre cantadores, em espaço para se contar “causos” e anedotas, em um retrato da vida cotidiana. O Carnaval era na rua e o povo seguia o bloco feliz – no início, não era típico da elite participar de uma festa criada por mestiços.

O ápice das marchinhas foi nas décadas de 30, as mais famosas marchinhas vêm desse período: “O Teu Cabelo Não Nega” - Lamartine Babo, de 31; “As Pastorinhas” - Noel Rosa e Braguinha, de 34; "Pierrot apaixonado" - Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, de 35; Mamãe Eu Quero” - Vicente Paiva, de 37, “A Jardineira” - Benedito Lacerda e Humberto Porto, de 38; “Allah-Lá-Ô” - Haroldo Lobo e Nássara, de 40, etc. Também grandes cantores se consagraram na marcha rancho, como Silvio CaldasCarmen Miranda.

Depois da década de 40, como conta o jornalista e pesquisador de música popular no Brasil, Aramis Millarch, o Samba-Enredo foi substituindo a marcha e acabou por diminuiu o caráter popular do Carnaval com suas letras mais difíceis de memorizar. O “Samba do Criolo Doido” - Stanislaw Ponte Preta (1968) é uma sátira a essa complicação da música, além de criticar o modismo de sempre falar, nas letras, de eventos importantes para a história do Brasil (o que, de certa forma, persiste até hoje), normalmente não compreendidos pela população em geral.

Dalva de Oliveira
Há outras composições marcantes: na década de 50 surge Dalva de Oliveira, cantora que viria a gravar a inesquecível “Bandeira Branca”, em 70; “Cachaça” - Mirabeau Pinheiro e Lúcio de Castro foi gravada em 1953; Máscara Negra - Zé Keti e Pereira Mattos veio em 1966 e a vencedora do Festival da Canção Brasileira do mesmo ano foi a marcha “A Banda”, de Chico Buarque; mas a produção diminuiu muito, sem o apelo de ser música tema do Carnaval. O desfile se oficializou e hoje, com diz o jornalista Walter Garcia, os carros são montados para se ver pela televisão e não pelos foliões, estrangeiros e atrizes da televisão têm mais destaque do que a comunidade que trabalha o ano todo para montar o desfile.

Morto o Carnaval, a marcha sobrevive. Além de ser mais um ritmo do extenso catálogo da miscelânea brasileira, ainda é mote para muitos compositores e música para o desfile de muitos blocos de rua. Como diria Caneco, ao retumbar da marcha: “Vamos embora, tá na hora da folia, vamos lembrar como se brinca o Carnaval, / O nosso bloco tá na rua e a alegria já contagia quem vai bem e quem vai mal”.

Um comentário:

  1. Fantástico, excelente información. Un abrazo desde México

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