Clube da Esquina

Atendendo a pedidos, esse post é uma marca virtual pra lembrar que há vinte e poucos anos alguém pariu o criador do blog (ou um dos criadores, num sei direito). Como escrever aqui é bem mais barato que comprar presente, parabéns Bolshoi / Alemão / Rafael!

Era começo da década de 70, pouco depois do Ato Institucional 5 acabar com o Habeas corpus e formalizar a ditadura. Se antes ainda havia a esperança e a música fervilhava em resposta ao golpe, agora o clima para o pessoal da Moderna Música Popular Brasileira (originalmente se chamava MMPB) era de decepção e tristeza. Uma galera foge para Europa - como Chico, Caetano e Vandré -, outros ficam quietos pra não serem expulsos - como Edu Lobo. 


Nessa atmosfera de sonhos perdidos que surge, em 1972, o álbum Clube da Esquina, com e Marcio Borges, Beto Guedes, Elis Regina, Flavio Venturini e mais uma galera, além do próprio idealizador, o grande Milton Nascimento. Antes de falar do álbum em si, um parágrafo pra ele.


Milton tinha surgido para mídia em 67, depois de Elis Regina gravar "Canção do Sal". Em 68, "Travessia" ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção*. Apesar dessas não servirem como exemplo, nesse início de carreira suas canções falavam de uma Minas Gerais bucólica em que passou a infância - um bom exemplo é "Fazenda", que fala de quando "esquecer era tão comum que o tempo parava". Depois do golpe suas letras ganham a saudade do sonho de um Brasil melhor, do próprio sentimento de pertencimento ao país - que some na nova "Vera Cruz", onde "meu corpo sem lugar [...] deita nessa dor".

Em 72 o mineiro já era conhecido pelo público, mas ainda não tinha o mesmo prestígio que a panelinha paulistano-carioca da MMPB. O projeto do Clube é outro daqueles que decide lutar contra o sistema com metáforas e foi bastante ousado, em parte pelos experimentalismos das músicas, em parte porque foi lançado em formato de álbum (disco duplo), numa época que o LP ainda era bastante caro e a classe média consumia em maior peso o compacto.

O disco tem influências do Rhythm and Blues, dos Beatles (quem não teve?), além da própria música brasuka. Seus arranjos traziam uma complexidade maior para a música popular - vide "Um Gosto de Sol" é metade cantada e metade só tocada -, mas o mais legal é que ele traz ao mercado essa sonoridade mineira, com influências da religiosidade do barroco, da música sertaneja, diferente da feita nos grandes centros urbanos.

Vale a pena ouvir o álbum inteiro, mas para quem prefere só ter uma ideia, "Tudo que você podia ser" é um bom resumin - a vaca foi pro brejo, mas "você ainda pensa e é melhor do que nada". Também é legal "Nada Será como Antes", com suas quebras rítmicas de que está "resistindo na boca da noite, um gosto de sol". "O Trem Azul" busca a mesma terra perdida de "Vera Cruz", no arranjo meio onírico que surge do timbre de Lô Borges com o teclado em strings.




Apesar de tudo, o Clube não deixou seguidores. Flávio Venturini formou o 14-bis, o resto da turma seguiu sozinho, cada um pro seu lado. Em 78 Milton tentou reunir o povo para gravar "Clube da Esquina 2", mas esse é basicamente um álbum solo com participações mil, diferentemente do outro que foi uma criação conjunta. Feito no começo da abertura política, o disco tem a que todo mundo conhece, "Maria, Maria". Tem também a resposta a "Vera Cruz", "O que foi feito deverá / O que foi feito de Vera", com o otimismo de quem pensa que "se muito vale o já feito, mais vale o que será / e o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir", de quem sente que "o homem que eu era voltou".

*não confundir com o Festival da Música Brasileira, da Record e bem mais famoso no Brasil

Um comentário:

  1. Uma curiosidade: Milton Nascimento é ultra-tímido. Dar entrevistas era um sacrifício pra ele.

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