Amen Break, Sampling e Derivados

ou "Como um filme Gospel deu origem às raves"
*Baseado no vídeo de Nate Harrison.


Era uma vez um homem: Jester Hairston. Neto de escravos, se graduou em música nos anos 20, virou condutor de corais na Broadway e acabou trabalhando no cinema, rádio, teatro e tv. Para uma cena desses filmes, “Lilies of the Field ("Lírios do Campo"/Uma Voz Nas Sombras), de 1963, ele compôs uma música baseada em cânticos Espirituais dos escravos americanos. A música em questão se chamava Amen. E agora, para nós, o Jester sai de cena.


Era outra vez uma banda: The Winstons. Eram homens negros e brancos que tocavam funk, soul, gospel... eram caras legais. Um desses caras legais era o Gregory C. Coleman, e ficava lá nos fundos, na bateria. E em 1969 os Winstons gravaram um single. O Lado A dele continha Color Him Father, que foi sucesso nas paradas. E tinha o Lado B. Nele havia uma versão daquela música do filme do Jester, mas com uma cadência mais funky. Rebatizaram-na de Amen, Brother.

É comum que músicas Black tenham ‘breaks’, em que os instrumentos param e somente a bateria conduz, até que a música volta ao normal. E, muito descompromissadamente, nosso amigo Greg Coleman solou no break de Amen, Brother. Até aí tudo bem. Na época ninguém reparou direito em seis segundos de bateria de uma música do Lado B.

Mas no meio dos anos 80 coisas estavam acontecendo... Sintetizadores já não colavam mais nas baladas e um invento surgiu: o Sampler. Com ele era possível pegar recortes de músicas, mudar a velocidade e tocá-las ad infinitum. E isso dava um ar mais autêntico à música - ao contrário dos sons sintéticos, os samplers usavam sons de instrumentos de verdade. Qualquer um que soubesse operar um sampler podia fazer uma música sem tocar nenhum instrumento, e nada melhor para compor a linha de bateria do que os breaks.  Dentre os vários trechos recortados, escolheram o “Amen Break”, aqueles seis segundos da Amen, Brother, dos Winstons, que por sua vez era a versão funk de um cântico religioso de um filme Gospel dos anos 60.

Break para respirar.

O Amen Break foi mais usado que Havaianas e Luíza Brunet. Aceleraram, diminuíram a velocidade, picotaram, juntaram tudo, aproveitaram de todos os jeitos possíveis e imagináveis pra compor músicas na virada dos anos 80 pros 90. E o resultado tá aí:

Hip Hop: loops do Amen Break inteiros e mais lentos.
NWA - Straight Outta Compton
3rd Bass - Wordz Of Wisdom
Mantronix - Kings Of The Beats

Jungle, Drum&Bass e estilos derivados: Amen Break picotado e remontado mais rápido.
Shy FX - Original Nuttah
Hrvatski - Routine Exercise (essa é bem pouco sóbria)

O Amen Break foi o break mais usado, mas não compôs sozinho o cenário da música alternativa eletrônica dos anos 90. Outros breaks também foram bastante usados, como os de Funky Drummer, do James Brown, e Think, de Lyn Collins. Este vídeo tem outros 10 breaks como exemplo.

Pra fechar, uma moral: Raves, Hip Hop e Drum&Bass não são coisas do demônio. No fundo, é tudo música Gospel.

Amen.

Um comentário:

  1. Quer dizer que a juventude perdida de hoje, tomadora de extasy é fruto dos crentes?

    Wow! Que perigo se o Edir Macedo te pega!

    Muito informativo e interessante o post.

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