Pagode de Viola

Não, não é daquele ritmo tocado por bandas de 15 integrantes - dos quais 7 tem a função de apenas sorrir, dançar e mostrar seus topetes descoloridos -, com a adição de uma viola clássica pra segurar o ritmo...

A viola é a caipira, rancheira, lá do sertão mesmo, com dez ou com doze cordas. O pagode faz parte do que a gente costuma chamar de "sertanejo de raiz". Num dá pra dizer quem inventou, mas o primeiro a gravar a batida do pagode - com "Pagode em Brasília" - foi José Dias Nunes, ou, pros íntimos, Tião Carreiro. Carreiro aprendeu a tocar sozinho, tocou com um monte de gente mas foi com Antônio Henrique de Lima, o Pardinho, que a coisa mais deu certo.

O que eu acho legal no "Pagode em Brasília" é toda a tradição do sertanejo que tem na letra: se tem prisioneiro inocente, chama que eu tiro, tenho orgulho de ser caipira, e sô violero bão mesmo. Os paulistas podem tentar fazer igual, que não conseguem!




Três outras música de que eu gosto muito são "A Vaca já Foi pro Brejo", "Mundo Velho" e "Arapô". Nas duas primeiras é um cabra do sertão reclamando desse mundo perdido da cidade, em que tem mulher pelada no lugar da Santa Ceia, os filhos não obedecem mais os pais e pra Deus conseguir limpar vai precisar de mais que soda e água quente! Arapô fala da malandragem do caipira, os granfino da cidade acha que ele é bobo, mas de bobo num tem nada.

Pra quem gostar tem também "O Mineiro e o Italiano", que foi um causo la das bandas do Araguaia, d'um italiano rico que queria expulsar o mineiro pobre da sua terrinha. Além de pregações morais, é bem comum o pagode contanto causos. Só uma última sugestão: "Boi Soberano"


Saindo do youtube e voltando lá pro meio do mato, o pagode virou mais uma música de roda, com a galera batendo palma e dançarinos no meio. E aí entra o sapateado do matuto: a catira (ou cateretê). As origens da dança são tão perdidas quanto as do ritmo. Como não surgiu nem se difundiu nas metrópoles, os registros são mais daqueles que o pai contou pro filho, que contou pro neto, que já nem sabia direito como era mas também contou - mahomeno - pro bisneto e assim chegou em nós...


Bom, de qualquer jeito, reza a lenda que bandeirantes já dançavam. Faz sentido, a galera que dança mora normalmente no sudeste ou centro-oeste do país (principalmente no centro de Minas, no Mato Grosso, em Goiás). Os passos costumam ser simples, meio no repique da viola. No começo era predominantemente uma dança de homens, mas hoje ninguém mais respeita os bons costumes...

Hoje em dia o Daniel ainda faz alguns pagodes e regrava clássicos; o Jackson Antunes gravou um CD que ficou bem legal. Mas a única banda que eu conheço que tenta guardar a tradição através da inovação é o Matuto Moderno. Tem um post sobre eles lá no meu blog, se você teve paciência pra chegar até aqui embaixo, custa nada dar uma olhada ;)

Um abraço aperrrtado pra quem fica, parto com os zóio cheios d'água, mas me vou embora pras Minas Gerais agora!

Um comentário:

  1. Fabuloso esse texto sobre a viola e a cultura caipira. Adorei!
    Gostaria só de deixar uma ressalva se não se importar: A Viola Caipira é sempre de 10 cordas e nunca de 12.

    Um grande abraço

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